Vocês devem achar bem estranho um texto sobre futebol em um
blog com enfoque principal em poesias voltado para a zona oeste. Mas eu não
consigo não ver associação entre a religião mais popular do Brasil – que já
teve Nelson Rodrigues como mestre de cerimônias – e a poesia. Principalmente se tratando da
nossa gente, que faz da bola nos pés a caneta e transmite o que sente nas linhas
das quadras e campos (ou em qualquer espaço em que se possa rolar a bola) de
nossas favelas.
Penso que esta linguagem corporal é a mais espontânea de
nosso povo. É no jogo de bola com os pés que encontramos o riso, o choro, o
ódio, as mágoas. É toda a interpretação dramatizada do que está presente na
vida real do nosso cotidiano.
É onde muitos dos nossos que não tiveram acesso à literatura
podem produzir suas poesias, transmitir seus sentimentos, seus anseios, criar
seus personagens. E da mesma forma vejo marginalização nas poesias produzidas nas
ruas. Ou você nunca viu o jogador de bola da favela que é agressivo, ousado e
insinuante ser julgado pelas características de sua obra? “Seboso”, “abusado” e
“marrento” se assemelham muito para mim ao “coisa de bandido”, “marginal” e “vitimismo”.
É nessa onda de querer reprimir o que vem de dentro do poeta
que muitas escolinhas (que ironicamente se auto intitulam como local de aprendizagem
do futebol) mecanizam seus jovens com filas de “toque e passa”, dribles em
cones e exercícios lineares, buscando moldá-los ao padrão, aprisionando o que
há de mais sincero neles.
É preciso que deixe-os jogar, que se dê liberdade aos seus
movimentos, às suas poesias nas linhas do jogo, aos seus sentimentos. Como dito
anteriormente, é o nosso jogo. É a nossa realidade interpretada.
Guilherme Rodrigues é Estudante de Terceiro Período de Educação Física na Faculdade Unicesumar e atua como estagiário na Empresa Next Academy

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