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Mike Lopes - Contrariando Estatísticas

Quando o Esperançar surgiu para a cena, uma das proposta de trabalho era inspirar. Já citamos em outros momentos pessoas que nos inspiram e que a gente acredita que possam inspirar aqueles que leem os textos, são pessoas com certos renome, com histórias consagradas etc.  


Quando resolvemos trazer artista para publicar seus artigos falando de seus trabalhos, pensamos em pessoas novas, como a Marcelle e a Fabrícia. E a militância da Isabela. Todas estreando, expressando-se e inspirando com suas histórias incriveis. 


Hoje, o esperançar não traz um artista da área musical, não é um pintor de quadros e nem poeta. Na verdade, Mike Lopes é um pintor da vida, um escritor do mundo. Uma história fantástica de superação e que fez a gente repensar nossos anseios terrestres. 

Prioridade? Viver. Aprendemos muito ouvindo essas histórias e esperamos que vocês também sejam instigados, que possam refletir e entender que podemos crescer muito com o cara que está pintando a nossa casa; com o pipoqueiro, o camelo. Todo ser humano pode nos proporcionar histórias e conhecimentos incríveis. 

Quando falamos de contrariar  estatísticas, somos bem diretos em dizer que na maioria das vezes é fugir da morte, sobreviver em uma realidade onde isso é negado.


 Mike, começa sua história dessa forma. Nascido de OITO MESES, onde segundo o próprio, “Bebeu água do parto, teve a cabeça furada. Vários bagulhos aconteceu comigo” Logo após o nascimento a família ouviu do médico que ele provavelmente não sobreviveria, ou, caso isso acontecesse, desenvolveria algumas graves deficiências como não Andar, enxergar etc. 

Eu fico tentando imaginar como a família reagiu a um profissional da saúde dizendo que o filho não sobreviveria.  E, com exemplos de outros Bebês que não sobreviveram no mesmo hospital. 


No entanto, contrariando estatísticas, ele sobreviveu. E diz que “Mas to ai, pow. Firme e forte”. A partir daí, começou a turnê pelos bairros e comunidade do Rio de Janeiro. Podemos dizer que conheceu toda  a cidade, do Morro do Dendê á Cosmos. Passando pela Vila Valqueire, Acari, Praça Seca, Campo Grande, sempre com os Pais e o irmão mais novo. Estudou em colégio particular até o quarto ano e começou a trabalhar com 12 anos com o Pai, na intenção de começar a ter suas próprias coisas.


 A criança que ajuda o pai, a mãe em seus serviços não sendo forçados, sempre vão saber se virar na vida. Quando não por pressão, ou exploração, não existe quebra da infância. Com 12 anos queremos ter um bom tênis,queremos comer um sorvete, uma pizza, cortar o cabelo.

Muito além do consumo, a entrada para o mercado de trabalho também é um processo conturbado para aqueles que desejam sonhar.  Mike, com 15 anos, fez diferente de tudo que um dia já sonharam para ele, optando em fazer o ensino médio no Instituto de Educação Sarah Kubitschek, referência na formação de professores de Educação Infantil e séries iniciais do Ensino Fundamental.  E é claro, que o discurso da grande maioria era que ele não iria se formar. Muitos provavelmente o julgaram louco, fizeram chacota; até pelo fato do cara ser muito brincalhão, engraçado; se dar bem com todo mundo e viver de maneira livre. 


Vou citar um documentário bem bacana chamado Nunca me Sonharam, o título foi surgiu no depoimento de  um jovem que diz exatamente isso “Nunca me sonharam médico, nunca me sonharam professor”. Cito Kayuan na música Mil Vezes, quando ele diz “Tem medo de conquistar, crucificar quem almeja”. Pegando o contexto da participação dele, é basicamente uma virada de vida, é ser alguém que possa dar um retorno maior e melhor para a família, saindo do condicionamento que pobre só pode chegar em um lugar.. Assim como Mike em querer ser professor, é quebrar a margem. Como ele mesmo diz “Minhas notas sempre foram boas, dei aula. Fiz tudo e passei"

               Foto de Formatura 2018


Só nesse pequeno percurso a gente percebe que contrariar estatísticas é a vida do personagem desse texto, mas enfrentar a morte novamente é complicado… E na luta diária de ir e vir, o cara foi atropelado pelo Trem. Sim, pelo trem. E sim, sobreviveu, o que é raro nesses casos… Nesse tópico é interessante que ele sempre fala “Tem que colocar isso ai, tem que falar que eu fui atropelado pelo trem”. Dizer que não existe um propósito pra isso tudo é negar a beleza da vida.


Com os três anos de formação, Mike foi provando que podia chegar até o fim e sair formado. Nesse processo vendeu bala, doces. E o mais importante, deu aulas. Como ele mesmo gosta de dizer “Muitos diziam que eu não seria Capaz, mas eu fui Capaz”. 


Ao sair do Sarah voltou para a obra, onde já trabalhava desde os 12 anos…Além de correr em outros trampos como entregador no centro da cidade, vender cerveja em eventos, na praia e tantas outras coisas. 

Por mais que não exerça, até pelo dificuldade  que as escolas têm para contratar professores homens nas séries iniciais, Mike diariamente nos ensina que a vida precisa ser vivida. 


Histórias como a dele a gente encontra na nossa rua, na casa do vizinho. Mas sempre vamos ignorar por achar ser menos importante. Não! Não é menos importante. É o principal… Buscarmos referências próximas e acreditar que podemos construir um novo cenário de mundo, é nossa luta. 


Se ele está vivo hoje é por acreditar nos sonhos, na vida, na felicidade. Esperançar é sobreviver ao parto, é encarar um trem, é provar que é capaz.  


“Joga na mão de Deus, cria. Não se reclama do que vem lá do alto. Confia."- Mike Lopes 


Esperançar é abraçar os nossos para que todos possam juntos abraçar o mundo.




Comentários

  1. Noss parabéns sua história e bem interessante...... E continue acreditando que vc vai realizar seu sonho 😘😍❤️

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    Respostas
    1. Mike, menino de ouro, que Jesus abençoe este jovem que toda mãe gostaria de ter!!! 🥰 💝 🥰

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  2. Meu orgulho, o braaaabo❤️

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